EPISÓDIO 3
During…
A noite irradiou as primeiras fendas da luminosidade das estrelas. A balada, a mesma de sempre! Entretanto, o ar era outro. E sabem porque? Era eu a protagonista, ou seja, a principal daquela noite. Barramos a fila e me adentrei no cenário, com ares de posse. É claro, gostaria de ver meu nome datilografado na mesa principal do camarote, sendo este todo o meu, pelo menos naquele capítulo noctívago.
Poucas pessoas circulavam. A balada só bombava a partir da meia-noite- hora da cinderela voltar para a casa, mas ao contrário, a cinderela chegava. Estava claro que iria lotar! E aí se meus amigos não fossem! Seria um mico total deixar aquele camarote vasto e vazio. Um desperdício de tempo, dinheiro e humor. E eu havia convidado a todos, absolutamente todos, na tentativa de não correr o risco do vexame. As principais estavam já lá: Vanessa, Flavinha e Cris. Os primos e primas também viriam. Entretanto, rumo ao sucesso total, convidei até os “colegas” de Orkut e Facebook. Sabe aquelas pessoas que você nunca fala, mas que há poucas semanas falou só para garantir mais gente na sua festa de aniversário? Pois bem! Aconteceu exatamente isso comigo. Sinto muito a honestidade, pois não faço o tipo popular. Acredito que muita gente apela em um momento destes. Convidar mais um, beleza, afinal, a comanda é individual e quem lá entrasse pagaria a sua. Aí, que a dúvida me pegou, pois em festas “boca-livre” que fiz em casa, e tal, nossa, a galera veio em peso. Mas, quando o assunto é bolso, somente aqueles que gostam mesmo de você é que comparecem.
Óbvio!
Bem, vejamos quem gosta de mim, então!(risos sarcásticos)
- “Imagina se não vem todo o mundo!?” – perguntei com anseio para a Cris, enquanto passávamos batom no banheiro.
À propósito, banheiro feminino é básico nas baladas. Mas, não em seu sentido literal. Às vezes nem chegamos a usar a privada. Ou ainda, quando mais usamos, é para vomitar os quilos de vodka em nosso sangue. Nos próximos episódios, contarei o homérico e alexandrico(lembra de “Alexandre, o Grande”?) dia fatídico em que eu e a Flavinha nos embrenhamos no mundo das tequilas. Vamos lá, barman, mais uma… Mais uma…Aí chega um dos irmãos italianos e…mais uma! Se um homem teve a gentileza de nos pagar uma bebida, não vamos recusar, não é mesmo? Aliás, bebida é cara e quem quer desperdiçar!? Ninguém, não é mesmo? Afinal, são copinhos tão pequenos! E no disfarce do “não bebi muito hoje”, vamos rachar! Metade toma você e a outra eu. E nessa de copinho pequeninho, só para dar aquela agitada(detalhe: estávamos morrendo de sono no começo da balada e só tinha cara feio e horroroso…às vezes saímos de balada por inércia, como máquinas programadas), nem percebemos o que aconteceu depois. A última e vaga lembrança que nos irrompe à mente se tratava das duas, no mesmo cubículo do banheiro(lá têm quatro privadas, na pista de baixo), uma sentada com a cabeça baixa vomitando, e a outra, sentada ao lado, vomitando na lata de lixo. Lembro-me de só ouvir umas vozes dizendo: “…nossa, esse banheiro está cheirando vômito!”. E nós lá, entregues a Dionísio, sem condições de nos mexer.(risos sarcásticos). Isso sem contar nos selinhos que demos nas mulheres, ineditamente, naquela noite! Detalhe: somos hetero totais, mas com tequila no cérebro, transmuto-me em até mesmo no palhaço Bozó ou na Priscila- Rainha do Deserto. Mas, deixemos tal situação a ser descrita posteriormente!
Ainda no contexto banheiro, para nós, as quatro bonecas balzaquianas, a ida ao banheiro na chegada da balada é coisa absolutamente fundamental. Já chegamos prontas e maquiadas, mas se não dermos aquela olhadinha inicial no espelho, dá a impressão que estamos ainda de cara lavada e de pijama. E lá vamos nós, retocar o que ainda não precisa ser retocado, e lançar olhares de fatal ao espelho, como a promessa de uma noite quente e ardente. Eu re-retoco o batom e o pó, a Flavinha lava as mãos, batom e penteia os cabelos! Já a Vanessa arruma os seios e o seu vasto decote, e a Cris dá aquela rodadinha no espelho, de cima para baixo. Uma pitada a mais de gloss! Mais uma olhadinha final, e pronto, não existem mulheres mais gatas que todas nós!
Banheiro feminino é ainda aquele local básico das fofocas. Por isso, chegamos a ir quinze vezes na mesma noite. É ainda palco do cenário das lágrimas. Lembro-me da semana passada ao ver a Cris chorando pelo Pedro, por que ele, é claro, estava beijando outra no canto, como se estivesse fazendo a coisa mais tranqüila do mundo. “…desculpa, gata, mas a gente não tem compromisso!”- clássica resposta. E conversa vai e vem. Até as tias que limpam os banheiros sabem tudo sobre nós. Histórias e mais histórias. Já vi até mesmo montarem comunidades de orkut em homenagem a elas. Somos, na real, como novelas para estas profissionais da noite. A toda a semana, elas ficam sabendo dos novos capítulos. E por isso, entre os diálogos da vaidade, superficialidade e amizade, sendo esta última rara, chegamos a ficar 20 minutos no banheiro, em uma única ida, ora comentando da face da mulher que o seu cara tinha acabado de ficar, da roupa da fulana, ciclana, beltrana, ou para dar aquele descanso nos pés. São mais de quatro horas, sem sentar, usando o mesmo salto. Não há pé que agüente 100% do tempo.
- “Imagina, Gha…não pense assim, vai ser um sucesso! Aí meu Deus, meu celular….”- a bolsa dela tremeu- “…é o Augusto, nossa será que atendo?”
- “Sim, claro que atende….! Mas, ele vai acabar ouvindo o som!”
- “Então, mas nunca que ele pode saber que estou aqui. Nunca…”
Pausa! Mais uma olhadinha no espelho. O celular parou de tocar.
-” Hum, já sei, vou pedir pro Guimarães(um dos seguranças da balada) me deixar sair um minuto. Aí, eu falo lá do carro com ele, e ele não vai perceber! No carro é silencioso”.
- “Nossa, mais muito estresse isso…deixa ele tocar…”
- “Ah, claro, e ele aparece aqui com certeza, e eu já vou estar com o Pedro! Vai ser aquele barraco!”
Essa é a Cris, sempre confusa com esses dois homens. São os raros casos, assim considero, em que eles são os nossos bonecos. Mas, direitos não são iguais? Deveriam. Ainda hoje pega muito bem o cara pegador, mas muito mal a mulher pegadora. Quem foi um outro burro que inventou isso, hein?
Saí do banheiro, deixando a Cris lá, a resolver se atenderia ou não o telefonema. Ela queria e muito encontrar um príncipe, mas ela se matinha nesta gangorra, pois acredito que esperava por coisa melhor. Não sei! Creio ainda que ela gosta de manipular, e por isso, mantém a sua prateleira ativa. Mas, coisas que acontecem! Já fiz esse papel. Continuando…Estava eu super mega ansiosa. A expectativa de ver o “meu” camarote bombando era o propósito divino, assim como uma barriga esfomeada sem comer há dias vislumbra um belo prato de macarronada, ou como um viajante no deserto sem beber há horas fita um lago do outro lado da montanha. Eu era naquela hora só sede e fome. Queria dançar, viver e beijar o Márcio, e queria ser aplaudida. Ah, afinal, de nada burro tem aquele que inventou o aniversário. Pelo menos um dia do ano temos que ser o foco, ainda mais para aquele que celebra 30 anos de vida.
Pedi para a Flavinha ficar no camarote para não perdermos o espaço por uns minutos, e dei uma voltinha na pista com a Vanessa. Olhei se alguém conhecido estava lá. Até aquele momento uns três ou quatro! Avistei a Celeste a sua filha. Esta, uma das histórias peculiares da balada. Separada, bonitona, com 49 anos e com a filha de 19 anos ao lado, a Celeste é freqüentadora assídua desta balada. Vai todo o fim de semana! Super moderna, veste-se como uma garota, e vai com a Eliana, sua filha. Ambas afirmam se divertir horrores. Ainda duvido se a felicidade que a Celeste irradia é verdadeira. Como uma mulher de 49 anos, com a filha ao lado, pode estar na balada, todo o fim de semana, de boa, dançando!? E ela não pega qualquer cara não. Na pista de dança, uns homens jovens e lindos vêm falar com ela. E o melhor é que ela é jovem de tudo. Não dispensa um decote e uma saia justa. O conselho corriqueiro que ela sempre me dá é:
-“ Beija, querida, beija, que a vida passa e a vida é curta!”- diz, rindo sempre, bêbada, quando nos cruzamos no banheiro feminino.
Já eu fico na neura.
-“Deus, me ajude, aos 49 anos quero estar casada e com filhos e nunca aqui!”- reflito, mas o realismo bate sempre na porta como a última bolacha do pacote- “…nossa, mas tem gente que não casa, e se isso acontecer comigo, vou ter que vir para balada! Não vou ficar sábado à noite em casa assistindo Zorra Total…alías, Zorra Total nem vai mais existir….o que vai passar na TV?”- sinto um alívio que em seguida falece novamente-“…mas com essa idade, solteira, vou…já sei, freqüentar uns grupos…isso, de sábado à noite vou ficar com meus amigos do grupo…”- grande idéia, mas desisto novamente- “…que grupo?…eu mal freqüento a igreja…bem, o que fazer se eu não tiver ninguém!?…o que fazer!?…tenho que procurar algum grupo. Preciso pesquisar quais outros grupos existem em Sampa, no Brasil…no mundoooo. Por enquanto, vou começar a academia na segunda. Todo mundo aqui pode chegar a casar, e se eu ficar solteira mesmo, tenho que dar um jeito!”
Aí paro de pensar. Idéia inexata! Quem ainda foi o burro que inventou o Pensamento no momento em que mais não precisamos dele? Hum…
-“ Van, vamos tomar uma tequila pra começar!”
- “Ai, Gha, difícil, se a gente começar assim já viu. Vamos pegar uma ice!”
-“ É, mas essa ice cinza não tem álcool quase, parece um suco e eu preciso ficar bem pois estou começando a ficar nervosa. Não sei se o Márcio vem…!”- dizia eu, indo de encontro ao bar- “…fora que ice estufa e eu tenho que ficar quase sem respirar neste tubinho preto!”
- “ Toma uma black ou a sua famosa caipiroska!”
(Uns dois ou três rapazes já nos observavam…um bonito, outro médio e outro terrível…)
-“Hum..beleza!”
Ops! Sugeri uma mudança de direção. A balada, na parte de baixo, tem dois bares. Estávamos indo no da direita. Fim! Nunca! Passa reto! Não estava afim de cumprimentar o garçom. Detalhe: há algumas semanas, eu havia beijado o garçom. Bonitinho, novinho, mas só por conta do dia das tequilas, em que eu não enxergava um palmo diante do nariz. Interessante o quanto o álcool pode deturpar a realidade vista. Bem-vindo foi Dionísio nos primórdios da humanidade! Quanta coisa na bebedeira do povo todo foi feita, e apagada pela memória do próprio copo de uísque!? Imagina se filmássemos sempre quando bêbados!? E se de repente, as fitas todas fossem publicadas no youtube?…E se todos vissem as cenas caquéticas da bebedeira?…E se meus pais, avós, todos vissem? Não! Mas, pensando bem, seria engraçado. Um testemunho sobre a nossa vulnerabilidade, momento em que viramos palhaços não donos de nada, nem do próprio corpo, renderia a um bom filme de comédia. Cheguei até a cair no chão uma vez, de micro-saia e salto 10. Lembro-me que o rapazote do estacionamento morreu de rir. Vergonha! E claro, já fugi da blitz. Divagando sobre tal questão, a fundo, se realmente a polícia tivesse o dom divino de pegar todos os bêbados da madrugada, as cadeias seria mais que super lotadas e teríamos que usar as casas das pessoas como presídio. Daria para montar cidades inteiras, à noite, só com os consumidores do álcool e suas estripulias para escapar do bafômetro.
-“ Vamos para o outro bar, Van, o garçom está lá!”
A Vanessa começou a rir.
- ” Quem manda você beijar o garçom..!”- ela ria- “…aliás, você tem uma quedinha por garçom!”.
Pára! Imagino a cara da minha mãe no dia em que eu supostamente chegasse em casa dizendo:
- “Olá mamãe, este é meu novo namorado!”
-“ Sim, filha, qual a idade dele….parece tão novinho?!”
-“ …tem 21!”
Nossa! Meus pais reprovariam total, e a minha irmã, garota prodígio, obviamente, em sua intelectualidade e graça infanto-juvenil diria:
-“Agatha, você está atacando os menininhos. E não basta a você os rapazes da balada! Você tem que pegar também os garçons e os seguranças do lugar!? Você quer dar um limpa geral? Você está apelando só porque fez 30 anos!”
E em meio a estes pensamentos, extrai total aquela cena da minha cabeça. Imagina! Parece que aos 30 a probabilidade de ouvir “você está apelando” aumenta. Vou precisar virar uma heroína para driblar a todas essas acusações…
Sufoquei-me e corri para o outro lado do bar. A Vanessa só ria. E não teve jeito. Tomei uma dose de tequila sozinha. E que gosto de possível vomitar! Tão pouco aquele limão com sal resolve. Pedi na seqüência uma caipiroska. Iria misturar e isso poderia me trazer ruins conseqüências naquela noite, mas pensei:
-”…vou dançar tanto, mas tanto, que o álcool vai se extrair do meu organismo como uma striper tira as roupas em um show!”
À propósito, faço comparações inusitadas. É engraçado comparar e colocar lado a lado na mente. Possivelmente, mundos paralelos!(risos). Somos todos loucos, insanos, vivendo undergroundmente, em universos lado a lado.
Pista, vodka, show e exibição! Música no coração!
Ao som de “Silent Morning”, clássico dos anos 80, banda Noel, a balada flash back começou! Meu camarote ia lotando aos poucos. Amigos, parabéns, “…você está conservada…”, “…bem vinda aos 30…”, “…você é mais mulher agora…”, aos montes no camarote. E eu, toda poderosa, mas com um discreto vácuo no estômago. Onde estaria o Márcio? Já era meia-noite e meia, a pista da balada estava aberta(a pista abre, digamos assim, quando o DJ aumenta o som, liga o pisca-pisca e as melhores músicas são tocadas…eu já tinha decorado a seqüência de tanto que ia lá).
- “Flavinha, esse dj tem que mudar essa seqüência!”- gritava eu no ouvido da minha amiga, por causa do som. Detalhe: a Flavinha, esperta, já beijava, e eu, a aniversariante, sem meu par romântico.
Márcio! Marcio!
Tem sempre alguém na jogada, certo? Me casar e tal, ser uma princesa, noiva, ou coisa do tipo, têm sido uma idéia cada vez mais improvável em minha mente em razão dos acontecimentos. A vida se desenha por si só, e não eu a ela como tantos filósofos gostam de ditar. Chego a detestar, como um assassino que mata a sua vítima, as pessoas que, no calor do mau-conselho, enfatizam com ares de sabedoria: “ …a vida tem seu destino….você escolhe mau os homens, já reparou nisso?”…Beleza, e onde posso encontrar o manual correto intitulado “Escolha bem um cara”?… porque nas livrarias existem centenas na seção auto-ajuda. Detalhe: eu nunca compro. A Vanessa a-d-o-r-a comprar e lê e relê mil vezes, e ela sempre volta me ensinando alguma coisa. Como se regras existissem! O engraçado são aqueles livros que te aconselham à la “…cuide de si mesma, ame primeiro a si mesma, e depois, só depois será amada!”…muito filosófico, certo? Já vi suicidas sendo idolatradas por seus amantes.
(risos sarcásticos)
Continuando…Mas, o ditado “ solteira sim, mas nunca só” é a realidade pura. Todo mundo, mesmo solteiro, está sempre enroscado com alguém. Parece que é interessante ver o nome de um bando de “loosers” no celular. E não sei pra quê! E quando deixamos o nome dos ex- ficantes ou ex-namorados mesmo no cel, por anos, como cemitérios!? Acredito que quando a carência bate, batemos o olho no celular, olhamos para tais nomes e há ainda aquelas que pensam: “…e se eu der uma ligadinha!”? E não sei o porquê. Sabe aquele tipo de cara que você sabe que não deu em nada e nunca vai dar, e você, que não pegou nada que preste, ainda tenta ligar de novo!? Todo mundo já fez isso, ainda mais às 5 horas da manhã, quando estamos bêbadas, carentes e não queremos terminar a noite numa pior. Como se melhor ficasse!
Afe…Idéia inexata!
Sensação!
Continuando a história do Márcio, estou numa de “realismo do momento”. Sabe quando a gente se cansa de esperar pelo príncipe? Mas, a gente sempre, óbvio, tipo inevitável, precisa colocar alguém na jogada. Tem que ter um ficante, um alguém, afinal, todo mundo quer transar, em último caso. E o Márcio era o do momento. Médico, 35 anos!Sucesso! Mas, a dúvida… E eu não sei o porquê de eu investir num “cara de balada”.
É clássico o pensamento: “mulher de balada”, “homem de balada”. É quase certo, perto dos 99,9%, que a ficada não passará de muita coisa. Sexo rolará, é claro, mas só por conta do revezamento das prateleiras mesmo. Dia destes até mesmo um rapaz bem bonitinho chegou em mim e disse, isso depois dos beijos e elogios.
-“ Meu bem, o que você vem fazer na balada?!”
-“ Ah, lindinho, dançar, beber, curtir, e quem sabe conhecer alguém legal!”- disse eu, bem doce, fazendo ares de mocinha pra casar para o rapaz, quando estávamos sentados no sofá, no maior papo e amasso há duas horas.
-“ Ah, mas você sabe, né, querida? Se você está procurando um noivo aqui, não rola viu!?…mas, a gente se daria muito bem em quatro paredes!”
Um ponto pro cocô! Quando ouvi aquilo, senti-me a mais idiota das mulheres. E pior, desperdicei duas horas de dança somente para ouvir e beijar um homem, que na verdade, me falaria aquele indigestivo flatulento comentário. Mas o que eu poderia esperar!?
-“ A balada não é um altar!”- dizia a Vanessa, rindo da minha história, justo ela que há um mês atrás chorava no banheiro porque pegou seu ficante de balada beijando outra.
E com o Márcio não foi diferente, pois a base tem sido a mesma. Há oito meses atrás, eu o conheci naquela mesma balada. Lindo, alto, sedutor! Sempre o via lá, mas nunca tinha chegado nele. Aliás, não chego, prefiro ser chegada. E no embalo da música “People have the power”, outro hit anos 80, ele puxou conversa dizendo que reparava em mim há tempos e tal. Gamei! E de cara ele veio com aquele papo básico e clássico dos homens de balada quando vislumbram uma possibilidade a mais em suas estantes e prateleiras:
-“ Nossa, você é linda. Estou procurando uma namorada, mas estou confuso. Cansei dessas baladas….Nossa, você é perfeita! E você é diferente, diferente dessas mulheres de balada. Você parece ser coisa do coração!”- disse ele, aliás, sempre me diz.

Detalhe: ele diz isso há 8 meses. E sempre me diz no fim de semana. Dia de semana, mal o vejo ou falo com ele. E quando o rapaz fica com outras na balada, colocando-me na prateleira para esperar, sua boneca, ele diz:
-“ Meu anjo, não briga comigo. Eu estava bêbado e nem vi quem estava beijando!”
Dou uma de brava por umas duas semanas, e já volto pra ele. Afinal, como eu disse, ele talvez, TALVEZ, queira namorar sério comigo. Passaram-se apenas 8 meses. Quanto mais esperarei para vê-lo totalmente apaixonado? Dizem que a paixão dura 2 anos. Tenho ainda um ano e quatro meses para despertar a paixão em seu coração.
-“ Mas, você vai mesmo esperar mais tudo isso!?”- me pergunta a Vanessa, desconsolada.
-“ Não, claro que não. Ele vai ver só….mas é mais forte do que eu, sabe!?”- respondo, patética e ridícula.
Porque a gente não consegue dar a volta por cima e sair rebolando, de salto alto? A gente até tenta, mas parece que o homem da vez é a única possibilidade. E quando fazemos 30 anos, a sensação de “única possibilidade” piora. Tudo em razão dos ditames da sociedade. Já mencionei o quão burro foi o inventor de tais ditames? Se realmente fosse inteligente, reverteria o inventor tal situação. Pois, não consegue ver ele que estamos em 2009, século XXI, e que existem sim pessoas que nunca se casam? E quem zela por esse grande público? Somente as taças de vinho e as atitudes apelativas?
Ou ainda, a pressa que se tem após os 30 anos é hilário, como um elefante fazendo acrobacia no circo. Principalmente, em razão do comportamento da mulherada. Agora, a onda do momento é não somente se sentir pressionada porque todos da sua turma de escola ou faculdade se casaram, mas sim, por conta da natureza feminina. Enquanto a novela fala de congelamento de óvulo, a Flavinha me fez muito rir dia destes quando na porta da mesma balada disse:
-“ Não agüento mais essa vida! Quero casar! Tenho 32 anos, e até eu arrumar alguém e ter um filho, nossa vou ter uns 34, 35 anos. Meu filho terá de nascer com Síndrome de Down!”?
Nossa, ri muito do comentário exagerado-verdade da minha amiga. Mas não ri tanto quando em uma conversa feminina, minha vizinha, Nina, que adoro, de 53 anos, me contou como era entrar na menopausa. Dizia ela que sentia muitos calores, mas que felizmente, estava bem, pois tivera seus filhos aos 25 anos e estavam eles bem crescidos.
-“ É menina, coisa de gravidez tem que ser bem planejada. A natureza diz que o corpo é 100% saudável para ter filhos até os 30 anos!”
-“Ai, Nina, não exagera. Hoje, em dia, é tudo muito diferente. As mulheres têm sido mães mais tarde. Pronto, uma colega de trabalho minha de 38 acabou de ter seu primeiro filho!”
-“ É filha, mas são casos raros. Ela deve ter feito tratamento….!”
- “Não, disse que foi super natural!”- começava eu a me irritar.
Pausa! A Nina levou as mãos aos óculos, arrumou a gola da blusa e com ares de assassina de sonhos disse:
-“ Filha, corre. Você com 30 anos já. Você já perdeu mais da metade dos seus óvulos. Tem gente que termina de ovular com 33, 34 anos…corre, arruma um marido logo!”
-“ Ok, Nina!”……………….
Meu “ok” foi claro e seco. Minha vontade era dizer:
-“…sua velha, quem te ensinou tamanha baboseira?”
Mas, depois, descansei. Certamente, a Nina tinha a razão. E caso meus óvulos sejam todos perdidos, assim como os brincos ou anéis que perdemos nas baladas, vou lá e adoto um. Pronto! Serei mãe de qualquer maneira. Pensei:
-“ Tudo tem solução nesta vida, menos para a morte!”
Refleti:
-“ Pó, o cara vem todo o fim de semana. Será que justo hoje que é meu aniversário ele não virá? Muita sacanagem. Dou mais cinco minutos! Passados os cinco, vou à caça!”- pensei, atormentada, ainda com o rosto da Nina na mente. O nariz dela, naquele momento, nas imagens do meu cérebro, estava tão pontudo como de uma bruxa. Interessante como a raiva momentânea distorce rostos e corpos! Bingo! Coloquei até mesmo uma verruga naquele nariz pontudo e deveras fedorento!
-” Ninguém diz mais “pô” hoje em dia, Agatha! De onde você tirou isso, mulher!?”- ironizou meu Ego.
Ignorei-o.
E em meio à reflexão da maternidade pós 30 anos, o rosto enfático da Nina e a terceira caipiroska no cérebro, eu, já meio suada de tanto dançar para esquecer a inexistência do Márcio naquela noite, interpretando 100% a felicidade aos meus convidados, mas que a fundo sentia apenas 40%, a mais linda visão acometeu meu campo de visão.
Márcio, Márcio, Márcio!
De cabelos semi-molhados, camisa branca e perfeição, vi pela vidraça que ele estava na fila da balada. Nossa, foi como um suco no meu estômago ressecado,como um nó desatado nos cabelos, como um espirro quando a porta do metrô se abre. Que alívio! Que amor! Que apaixonada estou! Que tudo ele! Está vendo?Era preciso eu ter calma só! Ele não me enrolou por 8 meses não, ele só estava confuso! Coitadinho, o lindinho só precisava de um tempo. Eu, super mulher-inteligente, dei a ele esse time. Sim, seria hoje! Naquela noite eu me transformaria em uma das lendas- mulheres que conseguem arrumar namorado sério em baladas. Sim, seria diferente! E ele é tudo! Vou apresentar para a minhas primas, hoje, e elas vão gamar no meu namorado.
-“Gha, namorado?!”- disse o meu Ego ,desconfiado, deveras irônico.
-“ Sim, meu…namorado!”- respondi, ainda o fitando pela vidraça, embebida por um patetismo romântico, ora pseudo, ora autêntico, com ares de total crença e alívio somada a 3 doses de vodka no cerebelo.
E…