EPISÓDIO 8

 

Ops…acordei em um susto, como o filme Massacre da Serra Elétrica. Pois bem, quão antigo é esse filme! Falando em filme…

-“Nossa, o Márcio não me ligou ainda!”

Estranhei! Mas, acreditei ser ainda umas cinco da tarde. Procurei meu celular e ele tinha caído no chão. Peguei-o e a maior bomba do planeta Terra invadiu minhas pupilas. A impressão que eu tive era que as sete Cataratas do Iguaçu tinham caído em meus ombros e reflexão.

Nove e quinze da noite. SIM! O relógio batia a fatídica hora 21h15. E, nada, ZERO ligações perdidas.

-“Como!?”- sussurrei, com o estômago apavorado.

Levantei às pressas! Corri para o andar de baixo, no intuito de perguntar se alguém tinha me ligado. O Márcio nunca ligou em minha casa, somente no celular, mas talvez, naquela noite, teria tido ele algum problema. Claro!

-“Mãe, alguém me ligou?”- perguntei, aflita. As duas, minha irmã e mãe assistiam a um filme chinês, juntas.

-“Não, ninguém!”- minha mãe.

-“Absolutamente!”- a garota intelectualóide.

-“Tem certeza?”

-“ Sim!”- minha irmã, novamente.

Não, impossível! O que aconteceu com ele?

-“Não te disse?”- ironizou meu Ego,fitando-me no início da escada.

Ignorei-o e corri para meu quarto.

Iria ligar para ele.

-“Onde estaria o meu namorado!?”- refleti.

Ao ouvir a palavra “namorado” sendo dita ao meu cérebro, senti um gelo no estômago. Uma pontada do Ridículo e do Engano brochou meus sentidos. Hum…Idéia inexata! Teria o safado se safado novamente?

-“Vou ligar!”

Tempo!

-“Não é melhor deixar que ele te procure?”- sugeriu meu Ego.

Ignorei-o novamente.

E com avidez de leoa, peguei o celular em minhas mãos e liguei para o Márcio, o cara. O semblante “namorado” deu um tempo naquele instante de dúvida cruel.

Bingo torto!

Caixa postal!

Tocou, tocou, tocou e caixa postal, novamente!

Duas ligações já! Na tentativa de uma terceira, imaginei que estaria dando minha face para a crítica de outros, que obviamente, me julgariam uma desesperada. Sim, era preciso um outro plano para descobrir o paradeiro do Márcio.

-“Onde está o bandido?”- falei, em voz alta.

O príncipe virou sapo, novamente. E o amado, um completo bandido. Tipo básico, coisa total do Márcio.

Nunca! Preferi pensar em qualquer outro motivo para o desaparecimento, menos dar o braço a torcer e concordar com a prosa do meu Ego. Uma outra explicação seria dada, a fim de conter minha aflição e dizer o porquê da ligação acertada para as 6 da tarde não ter acontecido..nem às seis…nem às sete…nem às oito…nem às nove….nem às nove e meia…já eram nove e meia da noite!…Certamente, o cinema já era!A última seção acontece às nove da noite, e todos já entraram na sala, com exceção para a minha pessoa e sua agora “brilhante-pedante” companhia.

-“Cachor…!”- suspirei, não podendo completar a palavra, pois uma pitada de esperança urgia em meu cerebelo.

Armei, como um batalhão planeja a sua próxima batalha, a descoberta do paradeiro do Marcio. Caso o desgraçado, não mais bandido(bandido é coisa light perto do que ele havia se tornado naquele agora) tivesse se safado, eu descobriria. Daria um jeito de manipular a tecnologia. Sim! A bina do celular! Vou pegar o celular da minha irmã e ligarei.

-“Sim, ele não sabe o número! E caso não esteja querendo me atender, porque está vendo meu número na bina, vai atender outro!”

Detalhe: o plano-guerra já havia sido feito em tempos antigos. By the way-à propósito, qual mulher não cometeu tal papelão? Caso exista, por favor, apresente-se!

Aliás, quem foi o burro-inteligente que inventou a bina? Inteligente por que assim nos livramos de alguns que não queremos atender, afinal, não temos tempo a perder. Entretanto, burro, pois permite que sejamos excluídos sem ao menos a certeza, e a tal incerteza, dói muito mais do que um telefonema desligado na cara. Vale mais para a auto-estima pelo menos o ouvido que te atende e depois chuta comparado a aquele que te ignora logo no primeiro take.

Impossível! O Márcio me atenderia! Após aquela atenção toda dada a minha pessoa no aniversário, seria ele capaz de interpretar tamanha paixão? Seria um ator? Sim, caso sua máscara caísse, daria a ele o prêmio “oscar cafajeste do ano”. Deveras ser esta uma excelente idéia ao criador das coisas. Faturaria horrores com a premiação e ainda lhe sobraria dinheiro para comprar o Monte Everest.

-“Ele falou que te ama?”- perguntou meu Ego- “Não vi ele dizendo nada disso!

Ignorei-o, novamente.

Meu Ego, às vezes, parece um bezerro desmamado, um gravador de fita infinita, o filme Titanic três vezes seguidos! Quem dera matá-lo para assim calá-lo para todo o sempre!

Continuando…

Corri no quarto da pequena, e peguei seu celular. O aparelho em nada se parecia com o de uma menina de doze anos, mas de uma mulher. Minha irmã não tem 12, tem uns 42, assim imagino.

Disquei, com dor no coração!

Bingo!

Ele não atendeu! Ufa! Caso fosse uma fuga em relação aos meus telefonemas, ele teria atendido a este número, pois não conhecia. Ou seja, caro leitor, algo havia acontecido com o Márcio, novamente, meu namorado.

O que fazer?

SOS bonecas!

Liguei para a Vanessa. Ops…a Vanessa estava desconfiada. Melhor ligar para uma das lendas, afinal, preciso pensar positivo, apesar do mistério da maré-terror.

- “Flavinha, me ajuda, o Márcio sumiu!”

-“Como?”- interpelou minha amiga, com voz de sono.

-“Sim, nós havíamos combinado de ir ao cinema hoje à noite. Mas, claro, não estou no cinema agora. E ele não me ligou!”

-“Você tentou no celular dele?”

(Ai, a Flavinha tem cada pergunta óbvia!)

-“Duas vezes!”

-“Hum, não liga mais…deixa que ele te procura…ele deve estar no hospital! Ser médico não é fácil né? Vai saber se ele teve que fazer alguma cirurgia em cima da hora!”

-“Verdade, né!?”- disse, sentindo um alívio.

Alívio! Óbvio que no calor do diga-o-que-quero-ouvir, procuramos por palavras daqueles que irão realmente nos dizer aquilo que queremos ouvir.  E como a Flavia sempre foi a maior entusiasta da minha relação, em razão do papo das lendas e tal, eu me sentia mais segura ligando para ela.

Entretanto,

Teria a Flavinha total razão sobre o paradeiro do rapaz?

-“Mas, sei lá, ando desconfiada. Acho que vou ligar na casa dele em último caso!”- disse, caminhando em direção ao quarto da minha irmã, no intento de colocar de volta o celular.

-“Não, amiga, agüenta…ligar muito dá sinal de desespero. Vocês estão namorando, mas é o começo ainda! Melhor ficar por cima da situação. Deixa que ele te liga!”

Ao ouvir “vocês estão namorando”, senti uma vontade imensa, como um galão de água de cinco litros, de contar para a Flávia que o Marcio não me pediu em namoro. Entretanto, segurei. Diante da prova que mais cedo ou mais tarde surgiria, não estava a fim de pagar qualquer mico. By the way/ à propósito, leitor, quem está a  fim de pagar mico nesta vida? Ninguém! E por isso, teatralizamos um pouco de tudo. Óbvio! Idéia inexata!…E teatralizamos em todas as fases. Na ânsia da revelação(queria contar que namorava e tal), teatralizei e disse o que não foi dito. Não sei ao certo, mas é clássico adiantarmos os aplausos, antes mesmo do desfecho da peça. E agora, platéia, cá estou só no intento de resolver tudo. Desmentir? Jamais! Afinal, tenho reputação e não estava objetivada a passar pelo ridículo de ter inventado algo.

-“Mas, estou muito ansiosa. Será que algo ruim aconteceu a ele?”- questionei, sendo neste instante totalmente observada por meu Ego, que não me poupou de seus comentários desnecessários.

-“Ai, criatura, nada aconteceu de ruim com ele…você devia estar calejada com esse Márcio…o que você acha?…que um caminhão o atropelou e ele está na UTI agora, só esperando voltar do coma para ligar para você!”- falou meu Ego.

-“Você é muito palhaço mesmo, devia ir para um circo!”- respondi, irritada, a ele.

Tempo!

-“Aguenta, amiga. Ele vai te retornar! Ele te tratou super bem ontem, te pediu em namoro…ele deve ter tido algum imprevisto. Não tem sentido algum ele sumir. Relaxa!”

Desliguei o telefone. O meu nome naquele agora era Nervosismo, e não mais Ansiedade. À propósito, não sei qual é o pior de tais sentimentos? Idéia inexata? Seria uma combinação?

 

Momento DEFINA:

 

Ansiedade= é uma característica biológica do ser humano, que antecede momentos de perigo real ou imaginário, marcada por sensações corporais desagradáveis, tais como uma sensação de vazio no estômago, coração batendo rápido, medo intenso, aperto no tórax , transpiração etc.

 

Hum…Nervosismo também o é! Tudo! Enfim, meu corpo nutria-se de um completo rock metal em meu sistema nervoso, e eu não via a hora de tudo aquilo se transformar em uma valsa à la lagoa dos cisnes. By the way/ à propósito, burro foi aquele que inventou a ansiedade! Já percebeu, leitor, o quanto se perde por conta da estúpida ansiedade? Não é sem propósito que os célebres diálogos: “…não coloque o carro na frente dos bois”, ou ainda “…a pressa é inimiga da perfeição” têm o seu maior significado na sociedade. Quando estamos dominados por tal veneno, agimos feito imbecis sem cérebro, pois que tem cérebro pensa, e quem pensa, pensa duas vezes antes de agir, e quem pensa duas vezes antes de agir calcula melhor a consequência, e quem calcula melhor a consequência corre risco menor de se expor ao mico.

Sim, total verdade!

Idéia clara!

E neste ensejo, procurei me manter calma. Fui até a cozinha, peguei um copo de leite e subi para o quarto, novamente. Dei até uma espiadinha no filme que minha mãe e irmã assistiam, como se de repente, o filme me interessasse. Milagre! Óbvio, básico que eu interpretava para mim mesma. E sendo uma atriz para a minha própria platéia, nossa, não faltaram risos oriundos dos lábios sanguinários do meu Ego.

-“Ah, tá…você pegou um copo de leite, e está assistindo filme agora? Tipo, esqueceu do Márcio e da ânsia dele retornar! Ah, tá, conta outra!”- ria, meu Ego.

Platéia, por gentileza, onde posso encontrar um veneno de rato às dez da noite do domingo para assim eu assassinar um ser aqui!? Se meu Ego não falecer hoje, faleço eu!

Continuando…

Idéia clara! Cansei-me de fingir tranquilidade. A chinezada no filme se transmutara no rosto do Márcio. Eu o imaginei assim: chinês, safado e transando com chinesas. E no impulso da raiva e ansiedade-de-matar-a-qualquer-preço, subi para meu quarto, deixei o personagem segura-mulher-vendo-filme-e-nem-aí-pro-celular e me tornei eu mesma, novamente.

Sentei em minha cama e respirei.

Tempo!

De chofre, como um susto no trem fantasma, o celular  tocou, mas não o meu. O som sinistro provinha do quarto de minha irmã. Seria uma amiga dela? Ou, Márcio retornando?

Corri, como uma onça pintada em busca de um pedaço de carne no meio da selva da África ou Pantanal, e vi o número.

agatha_brava

666?”

Não!Estava eu vendo o número do demônio? Praticamente! A bina apontava o número de celular do Márcio. Indaguei:

-“Cachorro, retornou para o celular desconhecido e não para o meu!”

Irritada, hesitei, mas atendi. Ele ouviria poucas e boas.

-“Alô, me ligaram deste número. De quem é?”

Era a voz do agora, novamente, cretino…cretinaço-palhaço-de-circo!

-“Sou eu…”

Um silêncio! Ele reconheceu minha voz.

- “Aghata?…Gha?…ou linda!”- disse ele, meio tropeçando nas palavras. Era claro que o tonto estava sem-graça.

Bingo! Peguei-o no flagra.

-“O que aconteceu? Porque não me ligou? Não íamos ao cinema hoje?”- soltei o verbo mesmo, amarga.

Silêncio!

Revelação!

-“Oh, linda, o hospital me chamou e tive que vir para uma cirurgia. São coisas de médico!”

-“De novo? Sempre é isso! E no caminho, nem um aviso, um torpedinho, deu para você me mandar?….E, você não retornou para o meu celular, e sim para este! Te liguei duas vezes, você viu!”

-“Calma, Agatha, não sai do salto, não sai do salto…!”-suspirou meu Ego.

-“Ah, de quem é esse número?”- o curioso-cretino ainda queria detalhes do meu plano-caça-ao-paradeiro-do-enrolão.

-“Não interessa!”- fui, curta e grossa. Lógico que a mentira era nítida. Ouvia um som de música ao fundo do telefonema, e pelo que aprendi desde o jardim da infância, não existem músicas no centro cirúrgico de um hospital – “Onde você está agora?”

-“Oh, meu bem, estou bem no meio do centro cirúrgico!”

Bingo torto!

Alguns homens nos julgam com cara de palhaça de circo.

-“Mentira!…”

Pausa!

-“Linda, você sabe que eu te adoro né?”

Um momento, platéia. Ouvi eu a frase “Adoro?”…Pelo que sei, o “adoro”, para não dizer “amo”, é o mesmo que dizer que aquele ou aquela é bonitinho ou bonitinha, ou seja, o feio arrumadinho.

-“Adora? Achei que você me amasse, fosse apaixonado por mim!”

Tempo!

-“Calma, Agatha, não se entregue assim!”- falou meu Ego, diante de um delegado e um escrivão ao meu lado. Eu estava mesmo em uma delegacia me entregando, e ainda, a todas as provas do crime.

Continuei….

-“Você sabe que eu sou apaixonada por você, Márcio! Você mentiu, não quis ir ao cinema e me deu um perdido no celular! Eu amo você demais e faria de tudo para ficar com você, mas você não tem colaborado! Porque? Sou feia, ruim? O que eu tenho que não te agrada? Sou ruim de cama? O que eu não tenho que as outras têm?”- eu disse, com voz melancólica-chorosa-pedinte.

Pronto, a festa-zomba estava completa! O balde cheio de cuspe e as calcinhas todas expostas no varal!

Ei, carcereiros, me levem imediatamente ao calabouço, às grades, pois assumi meu crime agora, e tão pouco preciso de julgamento! Sai do salto, vesti um chinelinho de borracha velho e lavei a tapeçaria, ou melhor, a privada do cretino-que-adora-levar-mulher-em-banho-maria.

Hum…

Idéia inexata!

-“Para que se expor assim, Ágatha?… o cara já deu o recado logo quando te conheceu. Ele disse que não tinha como ter compromisso e você insistiu!”- falou o meu Ego, relembrando-me do momento “…não quero coisa séria, mas você está no meu coração, portanto, vamos curtir!”- frase esta dita pelo Marcio no primeiro mês de rolo e que fiz questão de apagar nas memórias impossíveis de serem apagadas.

Leitor, quem nunca fingiu que esqueceu de algo, para, enfim, não ter que confrontar com tal algo?

Silêncio!

Tempo!

Resposta!

-“Você sabe que eu te acho linda! Maravilhosa, mas, Gha, eu sou muito ocupado. Não tenho como te dar a atenção que você merece. E sair sexta, sábado, domingo, é coisa de namorado, e eu não estou podendo no momento. Quero continuar a curtir com você, pois acho que a gente tem um lance bacana!”

Um ponto pro cocô!

-“Lance!?”- indaguei.

E em meio ao título dado ao meu “namoro”, que por ele era chamado de “lance”, dei uma de Flavia-barraco e perdi as estribeiras. Ops…me contive. Bastou apenas um desligar. Bati o telefone na cara dele, sem dizer uma única palavra. Bati, desliguei sim, certamente! Era demasiado sangrendo ouvir a mesma frase oriunda da boca daquele homem, frase esta que ele sempre fez questão de me dizer, em meio a beijos, carinhos, saídas, baladas e promessas, que nunca se cumpriram.

Meu Ego me fitou e me abraçou. E eu precisava mesmo, daquele abraço, naquele momento.

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