EPISÓDIO 7
Rumo ao cinema com ele…
Esquece, leitor! Sou gente e não máquina. A bateria do meu celular tocou, gritando, como um bebê quando suja a fralda. Dormi, com o jornal nas mãos, no sofá…sem querer! Óbvio, meu biológico queria. Em neste contexto, o grito do celular foi tão estridente que mal senti os pés no chão. By the way/à propósito! Pela manhã, quando acordamos, tudo é mais alto, mais claro(muita claridade no meu olho, hein!), mais tudo! Acordo sempre super mal-humorada por conta deste “mais tudo” das manhãs, além do fato de eu detestar acordar cedo, como um diabo que foge da cruz ou como minha irmã caçula que odeia peixe. Nem te conto o ódio que ela tem! Dia destes chegou a gritar em casa, quando minha mãe esqueceu de comprar a carne dela, trazendo só camarão para a mesa. A garota prodígio atacou os livros ao chão, dizendo que só leria na vida e nunca mais comeria. Um de seus ataques básicos! Ela não comeu por três dias, mas vi que escondia bolachas debaixo da cama.
Safadinha!
(risos)
Continuando…acordei! Mas, claro, certo, não estava mal-humorada. Pelo contrário, estava super bem humorada. Corri para o banheiro, me arrumei, mas mantive o ar “acabei de acordar”. Passei até brilho nos lábios! Minha intenção era que o Márcio visse cada vez mais que sou linda, até mesmo no descabelado da manhã. Pensaria ele:
-“Nossa, que mulher linda! Acorda linda, com cores, sem bafo, cheirosa, e com um charme lindo, assim, mesmo toda despenteada! Vou casar com ela!”
Bem, fui lá e me produzi para ficar com ares de não-produção. Ele ainda dormia. Caminhei até a cozinha, e preparei um café da manhã. O meu namorado não tinha nada em casa. Coisa de homem. A sua geladeira estava 89,9% vazia. Vislumbrei apenas latas de cerveja, um pedaço de queijo, tomates e um pacote de Doritos, o salgadinho, dobrado.
-“Nossa, para que colocar o Doritos na geladeira!?”- pensei, estranhando.
Mas, se veio da cabeça do Marcinho, para mim, é lei.
Hum…Sentia-me meio cretina. Entretanto, acho que inconscientemente. Lei? Ora bolas, o que o homem fala é lei? De onde tirei isso?…Olhei para o lado e vi o unicórnio…Melhor ainda, vi a fadinha do Peter Pan.
-“Claro, é lei!”- concluí em meus pensamentos, totalmente convencida.
Embora com nada, fiz da pedra um leite condensado: suco de laranja+ torradas amanteigadas. Transformei o pão de ontem em torradas chiques, para qualquer restaurante grã-fino não botar defeito algum. E subi, no intuito de namorar e dar comida para o meu lindo namorado.
-“Bom dia, meu anjo!”- falei, dando um beijo em sua boca. Os olhos do Márcio estavam entreabertos. Ele estava quase acordado!
-‘Oi meu docinho! Café para mim? Hum, você mora no meu coração mesmo, hein!”- disse o gato, erguendo-se da cama para sentar, colocando os óculos. Aliás, lindérrimo e todos os “érrimo” ele fica de óculos. Super charme!
-“Cuidei de você e já preparei seu café!”
-“Oh, coisa da minha vida. Você sabe que é muito especial para mim, não?”
-“Claro que sei, não é?…Estou ciente, só não estou falando para não te deixar convencido!”- pensei.
Pensamentos.
Dei um sorrisinho travesso, outro beijinho, e aí sim disse:
-“Não sou, meu anjo. Você nem está muito aí pra mim!”- argumentei, erguendo os ombros, fazendo charme. Claro, dando uma de difícil e carente. Talvez o pequeno teatro desse certo, e aí, então, ele falaria no assunto que tanto quero.
-“Claro que estou! Você é tudo pra mim!”
Pausa!
Comida!
Terminado, sentei ao lado dele. Marcitcho ligou a TV e comentava assuntos triviais comigo, e nunca “aquilo do namoro”. Ele dizia ter gostado da festa, da noite de ontem, do filme que estava passando, e nada. Estava abraçado comigo, mas papo sério que é bom nada!
Idéia obscura!
Os minutos corriam com velocidade, como um maratonista na última curva da pista. Mas, antes que o maratonista cruzasse a faixa da chegada, tinha eu que me manifestar. Do contrário, teria que aceitar o bip ou celular do Marcio, tocando rumo ao hospital. Ainda desconfio dos muitos perdidos e saídas repentinas que ele me deu em nossos oito meses juntos. “…o hospital me chama, tenho que ir gata!”…Hum…Sei…Idéia clara!
Pois bem, se ele não tomou a atitude, eu tomaria. Afinal, as mulheres são mais corajosas que os homens. A ciência explica!
Ops…
A ciência explica?
De onde tirei?…Ah, assisti no Discovery Chanel.
- “Já sei, vou falar do cinema e emendar com o assunto!”- refleti meu plano pseudo-diabólico.
Pausa!
- “Meu lindo, hoje estava a fim de pegar um cineminha à noite. O domingo está tão gostoso. Vamos? Ah, estreou aquela comédia que quero muito ver. Vamos!?”- convidei o cidadão, com ares de entusiasmo-exagerado.
Ele me olhou sério, ao mesmo que bobamente. Estranho! O que ele estaria pensando? Que resposta ele daria? Deus do céu! Tem alguma cartomante aí on line capaz de me responder tal questão de imediato?
-“Puxa, essa mulher está no meu pé! Ontem fiquei o tempo todo ao lado dela, e hoje, de novo, ela quer. Ela quer namorar, quer coisa séria! Quer sair sexta, sábado e domingo comigo. Isso é coisa de namoro!”- imaginei ele pensando desta forma.
Será que ele pensou isso? Não sei, não sou cartomante, tão pouco vidente, médium, ou qualquer entidade do tipo.
Deixemos ao curso da própria história desenrolar tal desfecho!
Aliás, é curioso como pensamos por nós, claro, pois detemos posse de nosso cérebro, mas pelos outros também. Se alguém inteligente assim nascesse poderia inventar uma fórmula de intercruzar visivelmente tais diálogos. Seria um espetáculo! Creio que a situação provém da faceta egoísta natural do ser humano. Nós queremos reger, nos mesmos, a orquestra toda. A nossa e a dos outros! O mais enfático ocorre em conversas mais aflitas, em que nosso ego nos pega perguntando e respondendo pelo outro ao mesmo tempo. Só que as respostas do outros, sugeridas por nós, para nos agradarmos, ficam somente em nossos pensamentos. Não entendo, então, o porquê do desperdiçar neurônios! Deixe que o outro responda por si só…dê uma banana a tudo isso! Utopia! Sonho! Se fosse possível, tudo seria brilhantemente diferente, principalmente naquela hora. O Márcio não responderia aquilo que pensei, mas sim:
-“Claro, linda, vamos ao cinema. Aliás, vamos emendar o dia? Você fica aqui e passamos o dia todo juntos, afinal somos namorados!”- suposição.
Idéia inexata!
Ele não respondeu nem isso, nem aquilo. Mas, uma surpresa:
-“Sim, meu doce, com você quero tudo!”
Lindo! Vislumbrei mais três unicórnios nas minhas vistas. Um sonho! E mais algumas fadinhas!
Poupe-me de mais palavras!. Naquele momento, para mim a frase “…com você eu quero tudo!” transmutou- se em “…estamos namorando!” Bastava! Frase mais alguma eu precisava, pois detinha a certeza em minhas mãos. O Marcinho jamais passara dois dias seguidos ao meu lado, e se ele quisera, era porque me amava…queria namorar.
E neste contexto, de chofre, meu celular tocou. As respostas de torpedo das três amigas gritaram no aparelho. As bonecas se manifestaram, e eu, fui correndo ver as respostas. Fui ao banheiro novamente, e li.
- “Sua danada, verdade mesmo!?”- sms da Cris.
- “Até que enfim, né? Sucesso, amiga!”- sms da Favinha.
- “Mesmo? Sério?”- sms da Vanessa.
E no embalo gossip daquele festivo momento, liguei para as três, colocando-as na conversa em um mesmo telefonema. Tudo em off, claro, no banheiro!
-“Oi meninas, vocês acreditam nisso!?O Márcio me pediu em namoro!”- falei para elas.
- “Ninguém te pediu em namoro!”- comentou meu Ego.
-“Dá licença, por favor. Pediu sim!”- argumentei, dando uma banana ao espelho do banheiro, enquanto segurava o celular com a outra mão.
- “Você tem certeza?”- perguntou meu Ego ironicamente, exibindo olhares de discórdia.
- “Claro que sim! Você acha que sou tão burra sim?”- respondi, nervosa.
-“Depois não vai ficar chorando sozinha por aí…Você não me venha dar trabalho depois com aquela ladainha!…porque depois, sou euzinho que tenho que cuidar de você, não é?”- meu Ego insistia.
-“ Tá! Cai fora!”- respondi, o expulsando do banheiro.
Tempo!
-“Nossa, não estou acreditando!”- comentou a Van, com voz semi-empolgada-assustada – “O que deu nele?”
-“É isso aí, garota! Agora você é mais uma das lendas como eu!”- exibia a Flavinha- “ Se aconteceu comigo, poderia acontecer com qualquer uma de vocês!”
-“Gente, estou a mil, não me agüentando. Há oito meses espero esse cara me pedir em namoro. Nunca achei que ele me levaria a sério, pois é cara de balada, clássico. Mas…!”
-“É isso, aí, garota…você é do time das 1% mesmo. Entrou para o clube!”
- “Só posso dizer que estou de queixo caído!”- falou a Van.
-“É, mas finalmente, então…ai, perdemos nossa amiga da balada?”- perguntou a Cris.
-“Sim, né? Agora vou namorar sério! Vamos fazer só passeios de casais, concorda?…Um dia vocês também vão conseguir, vou torcer!”- dizia eu, feliz- exibicionista, um tanto ridícula. Fazer o que? Estava eu a fim de exibir mesmo, afinal, permanecer no ringue por oito meses era coisa trabalhosa e não para qualquer uma.
-“Ai, amiga, se tudo deu certo então, só posso dizer que estou feliz por você!”- finalmente a Van me deu uma palavra de contentamento. Nítido que a Van estava com inveja.
Tempo!
-“Não seja patética, Agatha. Por que você acha que está despertando inveja?”- perguntou o meu Ego, sempre grudado em meu cangote, espionando-me.
-“Ora bolas, conquistei um cara de balada. Venci a guerra, virei rainha…dei um gol, perdi dez quilos, tirei dez na prova…você não conhece tais sensações de VENCI TUDO?”- questionei a ele, ironizando a sua presença irritante a toda hora a me questionar o certo e o errado.
-“E quem te disse isso, mulher? Vê lá se esse homem está do seu lado mesmo, hein? Ontem, eu vi ele conversando com uma loira na pista de dança!”- ainda o Ego.
-“Afe, que droga! Nem venha com essa…a Cris estava lá e disse que não era ele com a loira!”- eu me irritava.
-“Ah tá, amiga é amiga, mas nem sempre amiga diz 100% verdade. Que mundo você vive, Agatha!?”- meu Ego dizia.
-“Basta, poupe-me!”- indaguei, mas ainda com os pensamentos em mente.
Falou meu Ego a verdade? Mentiu para mim? Bem, verdade, não sei qual é a do meu Ego!
Inveja?
Porque sempre quando alguém duvida de nossa felicidade logo tratamos de intitular tal capítulo como Inveja? Está aí mais um clichê humano. Mas, caro leitor, e se realmente a desconfiança for sincera? É clássico nos defendermos sempre com a máxima : “…tal tem muita inveja de mim!”…Mas, porque? Nem sempre, óbvio, tipo básico!
Ponto para a dúvida! Ainda mais com aquele cara! Todas nós sabíamos o passado do Márcio, o baladeiro de plantão, e louco por um rabo de saia.
Ponto para a mudança! Mas, caro leitor, era certo que o vinho não se transforma em água, mas de repente, o casulo pode virar borboleta. Falta apenas tempo para tal sucesso.
Poupe-me meu cerebelo! E a inveja existia, assim concluí. As bonecas queriam meu bem, afinal, estávamos juntas há anos. Nos adoramos! Mas, é básico que elas também queriam namorar. E eu seria a primeira a sair daquela vida zuada de balada para começar a pensar em casamento.

-“Um…dois…três…Nossa Senhora de Lourdes, me proteja Deus pai e Nossa Senhora na terra! Casamento, Agatha? Perdi algo ou você não está muito apressadinha!?”- satirizava o meu Ego.
Ignorei-o!
O Márcio era meu.
E neste enlevo, despedi-me das meninas a fim de não despontar pistas no cérebro do Márcio. Ele, certamente, imaginou que eu fosse ao banheiro fazer qualquer outra coisa, menos papear com as bonecas.
Retornei e ficamos juntos por mais um tempo! Até que o meu gato me deixou em casa, como um príncipe, um total gentleman.
-“Tchau, meu amor! Até mais tarde!”- beijei-o na boca, ao sair do carro.
Ele nada disse. Mas, me respondeu com os olhos e o toque dos lábios. Sim, ele estava apaixonado.
Tempo!
Satisfação!
Cheguei em meu quarto feliz da vida. Tirei os sapatos, a roupa, e fiquei a olhar para o teto, para os cantos, para tudo. Liguei o som bem baixinho e cuidei de descansar. Mas, é claro que não daria. A excitação era tamanha! O Márcio nunca tinha estado tão presente, tão lindo, e ainda me dando presentes, coisa que nunca havia feito. Havia se apresentado para meus primos como se da família assim fosse. Eu estava namorando! Após alguns bons anos sem namorar, e só pular de ficante para ficante, eu teria um namorado. E que sorte a minha, caro leitor! Começar a era balzaquiana já namorando. Não, definitivamente eu não era mais uma solteirona. Teria uma companhia para viajar, ir ao cinema aos domingos, apresentar aos meus pais e família, levar para o jantar de casais, etc… Sim, eu iria agora no jantar de casais com gosto! Totalmente feliz! À propósito, vou propor eu mesma um jantar de casais no próximo fim de semana.
(risos)
Fim às baladas, a todo aquele-processo-obrigatório do fim de semana! Muitas vezes, na falta do que fazer e no intuito de driblar a carência, por mais cansada que estejamos, vamos para a balada. E, nossa, não estou afim! Cansei de ser boneca na estante, prateleira! Cansei do mercadão! Som? Sim, porém ouviria junto com o Márcio. Mas, fim aos clichês de observar todo-mundo-pegando-todo-mundo. Fim aos beijos estranhos, do assédio dos caras casados-mentirosos, dos caras nos tratando feito bonecas…da bebedeira e da deprê pela manhã.
É básica a depressão pela manhã após a balada! Um vazio gigante nos corrói, assim como o álcool em nosso sangue. É péssimo a ressaca! E por mais acostumadas a balada que estejamos, o dia seguinte é o pior, como um vulcão em erupção. Aliás, quem foi o burro de plantão que em sua atividade entediante inventou o dia seguinte após a balada? Não pelo significado do nascer do sol em si, mas pela sensação que o sentimento evoca: o corpo físico total estragado, e a mente, o coração, vazios. E por que? Beijar na noite, beijamos! Mas, sozinha, continuamos. E é quase certo que aquele cara beijado, se lembrar de você, vai chamá-la de “mulher de balada” ou coisa do tipo, ou seja, não vai passar daquilo.
Tempo!
Reflexão!
Mas, finalmente, eu estava namorando. Feliz da vida! Tudo havia mudado!
Fiquei a planejar meu namoro, ao som de Djavan e minha preferida…
Assim
Que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão,
Dava prá ver o tempo ruir
Cadê você?
Que solidão!
Esquecera de mim?
Enfim,
De tudo o que
Há na terra
Não há nada em lugar
Nenhum!
Que vá crescer
Sem você chegar
Longe de ti
Tudo parou
Ninguém sabe
O que eu sofri…
Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor…
Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano…
Adormeci, mas com o celular colado ao meu lado. O Márcio me ligaria às seis da tarde, e lá iríamos ao cinema, namorar e curtir o domingo.